Tendências para investimento social privado no campo dos negócios de impacto

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 15-03-2018

Tendências para investimento social privado no campo dos negócios de impacto

O setor de Negócios de Impacto Social (NIS) tem crescido como nunca nos últimos anos e, como era de se esperar, caminha lado a lado com o Investimento Social Privado (ISP). É preciso, agora, definir as tendências e desafios para a atuação dos investidores desse campo. Quais caminhos são possíveis de se estabelecer? O que podemos esperar para 2018?

Com essas questões em mente, o Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE) – uma associação dos investidores sociais do Brasil – promoveu um debate online como preparação para os temas que serão discutidos no Congresso GIFE, evento que acontece de 04 a 06 de abril, em São Paulo. Participaram da conversa Graziella Comini, coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social (Ceats) da Universidade de São Paulo (USP); Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e um dos coordenadores da RT de Negócios de Impacto do GIFE; e Erika Saez, gerente de programas do GIFE, como mediadora.

De acordo com artigo publicado no site da instituição, o tema já vem sendo pauta não só de discussões, mas de ações conjuntas entre os associados do GIFE, que conta hoje com a Rede Temática de Negócios de Impacto Social. Esta é também uma das agendas estratégicas de atuação do GIFE para os próximos anos. Durante o Congresso deste ano, além de uma mesa específica para debater o tema, será lançada uma publicação a respeito como parte da série ‘Temas do Investimento Social Privado’.

Para iniciar a conversa, Graziella lembrou que, ao falarmos de NIS, é importante ter em mente que se trata de um tipo de organização que tem a intenção de gerar valor social e ambiental, além do econômico, utilizando para isso da lógica de mercado. Segundo a especialista, o número de organizações envolvidas neste ecossistema passou a se ampliar principalmente no final dos anos 2000, sendo a Artemísia a primeira aceleradora, criada em 2004, focada neste tema. Hoje, o campo está em plena expansão, como mostrou o “GUIA 2.5 – Guia para o desenvolvimento de negócios de impacto”.

Além disso, como lembrou Graziella, várias faculdades têm incorporado a temática em seus currículos e, algumas organizações da sociedade civil têm buscado, cada vez mais, desenvolver atividades de geração de renda e até criado suas unidades de negócios.

A especialista expôs também que diferentes atores também vêm se engajando gradativamente no setor nos últimos anos, como bancos de desenvolvimento, fundos de participações, family offices, institutos e fundações, entre outros. Porém, apesar do ecossistema crescente, ele é marcado por uma forte concentração geográfica, particularmente na região Sudeste, com poucos atores de fomento e de aceleradoras no Norte e Centro-Oeste do país. Esta lacuna pode ser vista como uma oportunidade de investimento para serviços, como o Sebrae. Além disso, falta capital semente disponível para os empreendimentos que estão no início do seu percurso.

“A boa notícia é que o investimento de impacto não é só visto como nicho de filantropos. Estamos neste momento de transição e precisamos consolidar como nova classe de ativos do mercado. Além disso, há muitas oportunidades de atuação para os diferentes atores, como institutos, fundações, universidades e diversos espaços a serem ocupados nos próximos anos”, ressaltou a coordenadora do Ceats durante a discussão online.

Os negócios e o ISP

A última edição do Censo GIFE mostrou que a aproximação entre os negócios de impacto e o ISP tem se ampliado. No debate, Fabio Deboni acrescentou, então, que a discussão atual não é se os investidores sociais devem se relacionar com essa agenda, mas como podem participar e colaborar de forma efetiva.

“Outra observação importante a fazer é que não estamos discutindo que os negócios de impacto são uma evolução da filantropia. Não podemos cair nessa armadilha. Na realidade, os negócios são mais uma ferramenta entre as possibilidades para os investidores sociais”, comentou.

O gestor do Instituto Sabin ressaltou que, para que essa articulação seja mais efetiva, é preciso ainda superar alguns desafios e barreiras que, em sua visão, são transponíveis e que não inviabilizam a aproximação. De acordo com Deboni, a primeira delas diz respeito a uma dimensão jurídica, ou seja, as organizações deverão analisar o seu estatuto e verificar quais mudanças serão necessárias de realizar para apoiar um negócio de impacto, por exemplo.

O segundo desafio está no âmbito contábil, ou seja, definir de que forma o retorno financeiro adquirido via apoio a um negócio poderá ser contabilizado. O terceiro diz respeito a um processo interno de convencimento, principalmente de conselheiros, para que não sejam resistentes a essa agenda.

“Vale a pena um trabalho de esclarecimento sobre a complexidade desta agenda, que é muito mais do que business”, lembrou Fabio.

Deboni conclui que a quarta barreira está na dimensão das habilidades: a organização conta com algum profissional da equipe com as capacidades necessárias para lidar com esta nova agenda?

“E, por fim, eu agregaria mais uma questão: os institutos e fundações não podem ficar na inércia, esperando algum ator externo vir a provocá-los nessa agenda. Precisamos mudar essa lógica e nos mover. Não vamos esperar e sim ir buscar referências e encontrar oportunidades que dialoguem melhor com nossa organização”, provocou o gerente do Instituto Sabin, no debate que durou cerca de 50 minutos.

 

Para avançar

 

Com todo esse conhecimento, a pergunta é: como superar as barreiras e fazer o setor se expandir ainda mais? Graziella lembrou, então, de quatro dimensões que são fundamentais de serem olhadas até 2030 para que o campo possa se fortalecer. Uma delas é a necessidade de se diversificar mais os empreendimentos, que ainda são muito homogêneos. Para ela, além de ter mais liderança feminina e diversidade de raça, por exemplo, é preciso fomentar os negócios em outras regiões do país e também incentivar que novos empreendimentos sejam criados nas próprias comunidades.

Outra proposta da especialista é estabelecer maior conexão com outras agendas, diversificando a conversa com atores fora deste universo. E, a última dimensão, pontuou Graziella, diz respeito à melhoria na gestão do conhecimento sobre o campo, com a participação mais ativa da universidade, por exemplo, para sistematizar, criar métricas para definir e medir impacto, disseminar a temática etc.

Mais do que apenas apoiar diretamente os negócios de impacto, os investidores sociais podem se aproximar deste campo de diversas formas. Fabio Deboni ressaltou, durante o debate, cinco maneiras disso ocorrer, lembrando que estas possibilidades não se esgotam.

A primeira é fortalecer o ecossistema, investindo, por exemplo, em iniciativas que apoiam o campo, como aceleradoras ou movimentos. A segunda porta de entrada pode ser testando mecanismos de apoio para além da doação. A terceira forma de atuar no campo é colaborar, como apontou Graziella, na produção de informações e conteúdos, gerando novos repertórios e conhecimentos. Ou seja, os investidores podem apoiar estudos, pesquisas e publicações do setor. Outra oportunidade é aportar recursos para o desenvolvimento de métricas de avaliação, também essencial para fazer o setor expandir ainda mais. E, se possível, direcionar parte do capital filantrópico para os pequenos empreendimentos que precisam de capital semente.

Na avaliação dos especialistas participantes do debate, há muitos caminhos para esta aproximação e, o mais importante, é estar aberto para encontrar aquele que melhor se relacione com a forma de atuação da organização.