“Se não me vejo, não compro”: o Movimento Black Money

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 14-12-2017

“Se não me vejo, não compro”: o Movimento Black Money

A população brasileira declarada negra é de 53%, mais do que a metade. Mas, entre o 1% mais ricos do país, os negros são apenas 17,8%, segundo o IBGE. Essa realidade é resultado dos mais de 300 anos de escravidão da população negra que trouxe mais de 10 milhões de africanos como escravos para o Brasil. Apesar de abolida a escravidão, as consequências dessa barbárie continuam fazendo vítimas pelo país devido à permanência do preconceito racial. O genocídio diário da população negra ainda é uma ferida na sociedade brasileira: entre 2005 e 2015, a taxa de morte por homicídio entre negros aumentou (+18,2% entre homens negros e +22% entre mulheres negras) enquanto da população branca diminuiu (-12,2% entre os homens brancos e - 7,4% entre as mulheres brancas). Segundo pesquisa de 2017 do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), existe 23,5% maior probabilidade de um negro ser assassinado em relação a cidadãos de outras raças/cores.

A verdade é que a população negra sempre teve que lutar pela sobrevivência. E, mesmo depois de todo o desenvolvimento das últimas décadas, a luta ainda é necessária. Segundo levantamento feito pelo Sebrae, em 2015, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE), os negros correspondem a maioria dos empresários do país. No entanto, a renda da fatia negra corresponde à metade da do empresariado branco. Isso se dá porque os negros, em sua maioria, empreendem em setores de menor lucratividade e muitas vezes sem planejamento. Eles empreendem ‘por necessidade’. Esse número também traz consigo outro aspecto preocupante: se a população negra está empreendendo por necessidade, muitas vezes é porque perderam os seus empregos formais e precisam sobreviver.

A expectativa, no entanto, é de que esses números caminhem mais e mais para a equiparidade, já que a juventude negra está cada vez mais consciente, tecnicamente preparada e dedicada a usar o empreendedorismo como ferramenta de mudança social. É daí então que surgem novas estratégias para mudar a vida da população negra.

Inspirado nos Estados Unidos, onde os negros vivenciam realidade semelhante a do Brasil, o Movimento Black Money incentiva o desenvolvimento do empreendedorismo negro brasileiro, por meio da difusão de conteúdos nas áreas de inovação, tecnologia, comportamento e finanças. Pensadas por negros e para negros, inúmeras instituições financeiras foram criadas na América do Norte nas últimas décadas. A mais famosa delas é o banco One United Bank, onde os negros mais influentes dos Estados Unidos são correntistas. Ele foi criado com o intuito de mensurar o poder de compra da população afro estadunidense e canalizá-lo para gerar empregos, construir negócios e aumentar o patrimônio. Para o Black Money, o dinheiro deve ser mantido e circular entre a população negra, com o objetivo de gerar riquezas para a comunidade e empoderar economicamente o coletivo, a partir do chamado ‘afroconsumo’. O movimento é tão forte nos Estados Unidos que lá o poder econômico da população negra se tornou uma ferramenta de protesto. No Brasil, no entanto, o Black Money ainda está sendo inserido nas discussões e posto em prática nas decisões cotidianas.

Com o slogan ‘não me vejo, não compro’ e o incentivo a dar sempre preferência a empreendedores negros, a prática quer desenvolver no público uma consciência social, econômica e financeira. Além disso, o movimento quer incentivar e instrumentalizar o empreendedor ou jovem negro a desenvolver e potencializar habilidades que tragam diferencial competitivo para a vida profissional.

“A diferença é que iniciativas como o One United Bank, Grameen Bank e o D’Black Bank (fintech brasileira para o público negro especializada em cartões de crédito e outros serviços financeiros que será lançada ainda este ano) não visam atolar o devedor em juros, como fazem as financeiras mais ‘populares’ em nosso país, mas sim, promover o desenvolvimento social responsável com crédito e dinheiro que não circula nos grandes ciclos econômicos”

afirmou Alan Soares, fundador do Movimento Black Money, em entrevista à revista Exame.

A ideia principal dessas iniciativas é pensar seus produtos, serviços e investimentos, levando em conta uma população que sofre com a falta de acesso aos investimentos convencionais, em sua maioria, muito caros. Dessa forma, um leque de possibilidades é aberto para a população negra poder investir, empreender e fazer girar mais dinheiro por meio do seu próprio trabalho, dentro de suas comunidades, com juros menores e condições facilitadas.

“Fazer um negócio social e apoiar a base da pirâmide não significa ter prejuízos. Pelo contrário: se movermos a base da pirâmide, toda a estrutura é beneficiada. Nossa meta é disseminar o Black Money como movimento de emancipação da comunidade negra no Brasil, transformando positivamente a realidade das pessoas mais pobres, negros e não negros. Por isso, as ações e projetos durante o mês da Consciência Negra foram essenciais, além de serem um exercício para todos em uma luta que deve se estender ao longo de todo o ano”, 

complementou Nina Silva, presidente e cofundadora do MBM, também em entrevista à revista Exame.

Mais informações sobre o Movimento Black Money: http://www.movimentoblackmoney.com.br