O que significa ‘inovação social’ na teoria e na prática?

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 07-06-2018

O que significa ‘inovação social’ na teoria e na prática?

Nos últimos anos, com o desenvolvimento do terceiro setor no Brasil e na América Latina, o surgimento dos negócios sociais, a modernização do setor público e o aumento do número de empresas atentas aos aspectos socioambientais de suas operações, cresceu também a complexidade do setor social. Novos termos foram surgindo e, em alguns casos, as práticas ultrapassaram as definições. Um exemplo disso é a ‘Inovação Social’. Apesar de poucos conseguirem definir o conceito de Inovação Social, não faltam práticas por aí.

Segundo a Stanford Social Innovation Review, a publicação mais respeitada sobre o tema, Inovação Social é uma nova solução para um problema social. Ela representa uma solução mais efetiva, eficiente, sustentável ou justa do que as soluções já existentes e cujo valor gerado beneficia, prioritariamente, a sociedade como um todo e não apenas alguns indivíduos.

O termo, como tantos outros, também mudou ao longo dos anos. A definição acima pertence a um texto, de 2008, chamado Rediscovering Social Innovation (Redescobrindo a Inovação Social). Isso porque, logo que foi lançada, em 2003, a publicação inicial definia Inovação Social como “processo de inventar, garantir apoio e implementar soluções inovadoras para necessidades e problemas sociais”. A mudança, chamada de “redescobrimento”, deve-se ao fato de que, nos últimos 20 anos, houve uma explosão de negócios, iniciativas e ideias no âmbito da Inovação Social, e, por isso, sentiu-se a necessidade de uma maior precisão na definição do termo.

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, em artigo publicado no site da instituição, compara a Inovação Social a um guarda-chuva, sob o qual se tem pendurado diversos temas e práticas, dada a natureza do conceito tão ampla e aberta. Segundo ele, algumas narrativas sobre Inovação Social parecem ganhar corpo no Brasil, dando uma falsa impressão de que elas esgotam toda a abrangência possível do tema.

Para ele, duas narrativas parecem ter ocupado este espaço até o momento, nos dando uma ideia errada de que, para ser classificado como Inovação Social, seria preciso estar ancorado em alguma delas.

A primeira, segundo Deboni, é mais recente e se vincula ao campo das finanças sociais e negócios de impacto. Ela está orientada na tese de que Inovação Social se resumiria a este novo campo, sendo, portanto, a percepção de que modelos de negócio para enfrentar problemas socioambientais seria, em si, a Inovação Social.

“Está claro que soluções de mercado podem enfrentar problemas socioambientais, e que estes mecanismos também estão ancorados sob o guarda-chuva da Inovação Social. O problema desta narrativa é que ela tem reduzido a compreensão apenas a esta vertente, o que parece não contribuir muito para que o tema da Inovação Social, conceitualmente, se assente sobre bases mais plurais e diversas”, explicou Fábio.

A outra narrativa citada pelo especialista procura delimitar a inovação social ao campo de atuação do terceiro setor – das OSCs (Organizações da Sociedade Civil) e movimentos sociais – sendo este campo o que deteria maior protagonismo e legitimidade em liderar e impulsionar a “verdadeira” Inovação Social. Esta visão, de acordo com ele, também traz consigo uma armadilha reducionista ao tentar contrapor a outra narrativa (de mercado) de forma também reducionista.

Segundo o artigo, historicamente, o terceiro setor colocou em prática diversas iniciativas de/para/sobre Inovação Social, sem necessariamente utilizar o termo. Construíram um amplo repertório de experiências, conexões e formas de atuar que conversam com a compreensão mais atual de Inovação Social.

“O contraponto a esta visão reside no fato de que a Inovação Social não está restrita a um único setor; seu ‘mandato’ é compartilhado por múltiplos setores. Esta é a sua natureza. Portanto, ela não é passível de ser reivindicada por um único setor”, destacou o gerente.

Deboni expõe ainda, em sua publicação, que outros países vêm debatendo o tema e despertando boas reflexões nos diversos segmentos envolvidos – fundações, OSCs, universidades, governos, empresas e cidadãos. Ele cita ainda partes da literatura internacional que alertam para este tipo de visão reducionista sobre o campo de Inovação Social:

“…a inovação social foi amplamente reduzida ao terceiro setor e aos empreendimentos sociais – e mais recentemente ao esforço de escala das startups (negócios de impacto)” (Vision and Trends of Social Innovation for Europe (European Comision, 2017)

 “A transformação efetiva e a igualdade que todos os cidadãos merecem e que o bem público exige, só podem ser alcançadas na medida em que os cidadãos possam efetivamente usar sua voz política e não saírem da esfera pública” (Social Enterprise Is Not Social Change, SSIR, 2018)

“A importância da política e das relações de poder na determinação da criação, aceitação e disseminação da inovação social” (Vision and Trends of Social Innovation for Europe (European Comision, 2017)

Como citado anteriormente, Deboni acredita que, na medida em que as agendas sociais avançam, elas também colocam a compreensão de Inovação Social em xeque, pois amplia-se muito o seu arco de relações trazendo consigo contradições inerentes a agendas muito amplas. Ele aponta ainda que é possível encontrar um panorama conceitual sobre o tema no estudo Social innovation futures: beyond policy panacea and conceptual ambiguity, de 2014.

“Neste documento, é possível se aprofundar melhor no momento que este campo vem sofrendo, sem, com isso, esvaziarmos sua relevância e contribuição à agendas públicas e de transformação socioambiental”, explicou.

Com o objetivo de possibilitar uma visão mais panorâmica do tema como estímulo ao debate, o gerente executivo cria também um quadro descritivo das diversas narrativas e hipóteses mais óbvias, a partir da ótica de cada segmento (o quadro completo pode ser encontrado na publicação original disponível no link ao final deste texto). Algumas hipóteses são contraditórias e acentuam ainda mais a necessidade de aprofundar o meta-debate sobre Inovação Social. Exemplo: há visões mais centradas no indivíduo e no mercado, tendendo a esvaziar o papel da esfera pública neste sentido, enquanto que outras vão justamente na direção oposta.

Deboni traz ainda, em seu artigo, um questionamento de como abordar o tema de forma didática sem ser simplista. A abordagem metodológica espiral, por exemplo, é bastante difundida dentro e fora do Brasil. Ela também vem recebendo críticas sobre a sua real capacidade de ilustrar de forma simples questões e abordagens complexas sem perder sua essência.

“A conceituação “clássica” da espiral da inovação social e seus processos é certamente útil, mas, primeiro não leva em conta a complexidade e a interconexão dos desafios globais que a inovação social em sua dimensão sistêmica é chamada a responder. Em segundo lugar, não considera o fato de que a inovação está longe de ser um processo linear”. (Vision and Trends of Social Innovation for Europe (European Comision, 2017)

Quais, então, seriam as alternativas a este método?

Para Deboni, uma nova abordagem conceitual não pode se sustentar sobre bases antigas – formatos organizacionais e programáticos atuais e vigentes. Ou seja, para a uma organização atuar com mais profundidade com Inovação Social, ela precisará, inevitavelmente, repensar e redefinir sua própria forma de atuação, e todo o seu modelo.

O gerente levanta, então, a pergunta de “como agir”, levando em consideração a complexidade do tema sem que ele nos paralize?

Em resposta, o autor explora, com base na literatura europeia, dois elementos importantes que podem inspirar organizações a traçar trilhas viáveis para se orientarem a melhor se posicionarem/moverem-se em direção ao tema. O primeiro diz respeito a sete tendências da Inovação Social a partir da realidade europeia.

Tendências em inovação social

  1. Capacidade institucional e bem-estar
  2. Democracia e confiança
  3. Competências e futuro do trabalho
  4. Tecnologias da internet e interações on-line / off-line
  5. Novos instrumentos financeiros
  6. Reforma urbana
  7. Interdependências globais

O segundo elemento trazido por Deboni oferece algumas diretrizes que sinalizam rumos que as tendências anteriores podem trilhar.

  • Centrado em pessoas, porque elas são a melhor fonte de inovação. Invista em pessoas para que elas possam moldar e impulsionar a inovação de acordo com suas aspirações e valores.
  • Focado em transformar o potencial de pessoas e instituições em resultados positivos, destacando a inovação social na perspectiva territorial como laboratórios de experimentação de novos modelos e de ganho de escala.
  • Com foco na elaboração de políticas públicas e na repactuação de novos contratos sociais em nossa região.

Para ele, o conjunto de trilhas temáticas e setoriais, além das inspirações de formas de atuação apresentadas podem servir como ponto de partida para as organizações refletirem sobre o tema. Ele, no entanto, afirma que não há uma cartilha pronta.

Confira o texto na íntegra em https://gife.org.br/inovacao-social-o-que-ha-embaixo-deste-guarda-chuva/

Crédito imagem: Freepik