Mulheres da periferia se unem para empreender

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 28-06-2018

Mulheres da periferia se unem para empreender

As mulheres, principalmente as moradoras de bairros periféricos, são as principais provedoras de mais de 60% das famílias brasileiras. Elas são responsáveis pela casa, pelos filhos e ainda precisam, de alguma forma, ter renda para o sustento de todos. Diante deste cenário, grupos de mulheres em diversas cidades estão se unindo para empreender. A palavra-base do trabalho é a reciprocidade que, para os bancos convencionais consiste em uma troca financeira, mas para as adeptas do Banco do Povo e Crédito Solidário (BPSC) significa algo ainda mais profundo: companheirismo e confiança.

Segundo levantamento feito pela pesquisadora da Unicamp, a economista Marilane Teixeira, o desemprego entre as mulheres negras cresceu durante a crise econômica. Entre o quarto trimestre de 2014 e igual período de 2017, a taxa de desocupação entre elas passou de 9,2% para 15,9%. Já o desemprego entre as mulheres brancas bateu 10,6% no final do ano passado, alta de 4,4 pontos em relação aos últimos três meses de 2014, quando a taxa de desocupação foi de 6,2%.

O BPSC quer combater essa realidade. O serviço de microfinança atende essencialmente empreendedores populares de baixa renda, sendo 67% de seus clientes mulheres autônomas. Para obter os emprésticos com juros muito abaixo do mercado e sem consulta ao SCP ou Serasa, as empreendedoras devem se organizar em grupos, que servem como garantia para o banco: se uma das mulheres não puder realizar o pagamento naquele mês, uma ou todas arcam com o valor.

O portal Gelédes trouxe, em uma reportagem sobre o tema, dois casos de sucesso encontrados na cidade de Mauá, na região metropolitana de São Paulo. Apenas em 2017, o Banco do Povo emprestou R$ 4,2 milhões para 367 beneficiários na cidade. Comparado a bancos convencionais, o valor parece uma quantia irrisória, mas, se injetada em uma única comunidade, onde o dinheiro será ganho e gasto no mesmo local, o potencial econômico se agiganta.

É o caso da pernambucana Francisca Aparecida Xavier Correia da Silva, de 58 anos, e da baiana Maria Rodrigues da Silva, de 60 anos, ambas moradoras da mesma comunidade e parceiras (junto com outras quatro comadres) no grupo de empreendedoras.

Francisca era uma faxineira que, apesar de ter trabalho fixo, vivia preocupada com as finanças de casa e buscava tempo para cuidar de uma das filhas, que tem problemas de saúde. Para aumentar a renda, ela começou vendendo alguns produtos na garagem de casa, vender artigos no trem, servir café na estação, tudo o que pudesse aumentar a renda da família e permitisse que ela pudesse ficar com a filha em casa.

De acordo com a publicação, quando Francisca soube do BPSC, decidiu investir na ideia. Formou o grupo junto de outras cinco comadres do bairro e seguiu com o plano. A garagem já não podia mais servir como comércio: com o dinheiro que pegou emprestado alugou um espaço na mesma rua, comprou um forno e mais prateleiras, um freezer, fortaleceu o estoque e montou o Mercadinho da Francisca, que hoje faz sucesso no Parque das Américas, em Mauá.

Dona Maria também era faxineira, mas gostava mesmo era de fazer salgados. O primeiro empréstimo dela foi no valor de R$ 1,2 mil e foi usado basicamente para comprar os ingredientes dos salgados e bolos. Em um ano ela conseguiu pegar ao menos três empréstimos e se equipou. Hoje, a cozinheira e empreendedora afirma que, apesar dos pesares, é muito feliz com o que faz. No Parque das Américas, Maria vai à festa, leva o bolo e recebe pelo trabalho.

O BPSC foi criado em 1988, ano em que o Brasil – assim como agora – enfrentava um período de recessão. O diretor executivo do banco, Fábio Maschio, contou ao portal Gelédes que, na época, a ideia era promover ocupação para os desempregados em comunidades onde a atividade autônoma poderia ser uma alternativa ao cenário de esgotamento da economia e do emprego.

“Nos anos 2000 nós perdemos relevância em função de outros instrumentos públicos de desenvolvimento social e o emprego melhorou bastante. É curioso que 20 anos depois nós voltamos a ganhar relevância. No último ano, crescemos 22% e só não crescemos mais porque falta investimento para o próprio banco. Se tivéssemos mais recurso, emprestaríamos mais”, reconheceu Maschio, em entrevista ao portal.

A reportagem trás ainda o testemunho da agente de crédito Clarice de Oliveira Rosa Falcão, responsável pelo trabalho direto com as clientes do banco. Para ela, dificilmente grupos formados apenas por mulheres têm problemas. Elas são pontuais com os pagamentos e eficientes em gerenciar o grupo e eventuais crises. Trabalho que, de modo geral, já fazem dentro de casa e sem receber por isso.

“As mulheres sempre estão em condições mais vulneráveis. Em uma casa de baixa renda, quem tem emprego fixo é o homem. Elas sempre estão com nome sujo, muitas vezes por dívidas que nem foram elas que fizeram. Muitas se separam, o marido vai preso ou perde o emprego formal, e elas têm de assumir integralmente as contas da casa. Começam vendendo poucas coisas como um bico do bico, mas aos poucos percebem que podem crescer e crescem”, disse Clarice ao Gelédes.

De acordo com ela, é comum que os grupos de mulheres se articulem para além das faturas. Elas se juntam para comprar mercadorias (e conseguir melhores preços), conversam sobre os negócios, doam seu tempo para as outras sem exigências, mas com a certeza de que a recíproca é verdadeira.

Confira a reportagem completa em https://www.geledes.org.br/mulheres-da-periferia-se-unem-e-formam-o-banco-feminista/

Crédito foto: Freepik