Expansão dos negócios de impacto social

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 25-01-2018

Expansão dos negócios de impacto social

O gerente executivo do Instituto Sabin, Fábio Deboni, escreveu um artigo, publicado em dezembro passado, na página do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), sobre o sentido público do campo de negócio social. O texto traz reflexões sobre o que foi alcançado até o momento no movimento pela expansão dos negócios de impacto social, em termos de conceitos e práticas.

De acordo com Deboni, a rápida expansão do campo de negócios de impacto social vem despertando muita euforia, reflexão e inquietação nos setores envolvidos. No campo do Investimento Social Privado (ISP), institutos e fundações vêm procurando entender toda as complexidades, nuances, potencialidades e armadilhas deste novo campo para delimitar e detalhar estratégias de interação e atuação. O autor dá ênfase a como essa relação entre ISP e os negócios de impacto pode se desenrolar. Ele questiona quais caminhos e formatos institutos e fundações podem seguir para se engajarem neste campo.

Segundo o texto, é um consenso que investimento de impacto não é uma evolução da filantropia e não representa o futuro para o qual todos os institutos e fundações devem convergir. Na realidade, os negócios de impacto constituem uma nova ferramenta que se soma às demais ferramentas historicamente manejadas pela filantropia em sua atuação, e têm provocado institutos e fundações a entenderem melhor essa aproximação. Ele também afirma que é crescente a aproximação entre os dois campos: ISP e finanças sociais e negócios de impacto, mas que, no universo de institutos e fundações, ainda são poucos os que, de fato, já estejam envolvidos com esse tema.

Outro aspecto levantado por Deboni é que existem muitas dúvidas sobre “como” institutos/fundações poderiam se engajar com o tema. Com estes “comos” mais claros, alguns institutos/fundações poderiam, inclusive, definir pelo não engajamento com este tema (por questões variadas), assim como alguns delimitariam melhor como atuar com ele. O autor sugere, por exemplo, a opção de se  fomentar iniciativas que conversem com o campo de negócios de impacto, mas com foco em aspectos ainda pouco abordados no campo, como negócios que defendam os direitos dos cidadãos, públicos minoritários, portadores de HIV ou necessidades especiais etc.

O gerente executivo menciona também que exemplos e modelos internacionais de negócio não se encaixam plenamente na realidade do ISP no Brasil, por diversos fatores, sobretudo pela questão dos fundos patrimoniais (endowments). Portanto, tem sido bastante restrita a “importação” de modelos de outros países (de como a filantropia local vem se engajando com investimento de impacto). De acordo com ele, inspirações internacionais são sempre válidas, mas necessitam de forte contextualização local.

Além destas questões, Deboni traz mais um conjunto de outros assuntos bastante controversos e que despertam boas reflexões. Por exemplo: ele acredita que o ISP pode contribuir com o campo dos negócios de impacto não necessariamente investindo diretamente em negócios de impacto. Em sua lógica, institutos e fundações podem destinar recursos e energia para fortalecer o ecossistema de negócios de impacto, apoiando as chamadas organizações “intermediárias”, responsáveis por orientar, apoiar a gestão, acelerar e conectar empreendedores sociais a possíveis investidores.

Estes intermediários, no Brasil, são, na grande maioria, organizações sem fins lucrativos e não se sustentam com sua atividade de aceleração e apoio aos negócios de impacto. Este tipo de apoio e parceria por parte de institutos e fundações já é feito historicamente pela filantropia no apoio a OSCs (Organizações da Sociedade Civil). A diferença principal é que, no caso dos intermediários, seu público “beneficiário” são empreendedores de negócios de impacto que oferecem soluções para enfrentar problemas sociais e/ou ambientais (por meio de modelos de negócio).

Ele também reflete sobre a possibilidade de institutos e fundações poderem enviar recursos e esforços para ampliar o entendimento sobre métricas e avaliação de impacto dos negócios sociais. Este é um campo que interessa muito aos próprios programas de institutos e fundações, visto que é uma agenda que precisa avançar na área social de um modo geral. Há dentre as organizações intermediárias do campo de finanças sociais aquelas focadas nesta dimensão de avaliação, e, geralmente, elas não se mantém por conta própria (com boa parte das OSCs).

Deboni aborda também que institutos e fundações poderiam também contribuir para ampliar o repertório de conhecimento sobre o campo dos negócios de impacto, seja por área temática (educação, saúde etc), seja por regiões geográficas/territórios, seja por tipos/modelos de negócio. Há um leque de oportunidades de fortalecer esta dimensão de conhecimento sobre o campo, bem como a realização de cursos, eventos e iniciativas de formação.

Por fim, o autor lista mais algumas questões que precisam ser amplamente debatidas e aprofundadas. Ele questiona, por exemplo, se haverá menor disponibilidade de recursos de institutos e fundações a partir do avanço dos negócios de impacto. Qual o sentido público do campo dos negócios de impacto? Queremos que institutos e fundações apoiem o campo ou os negócios de impacto diretamente? Como institutos e fundações podem fortalecer a dimensão do impacto social no campo dos negócios de impacto?

Leia o texto na íntegra: https://goo.gl/tYWq5R