“Em momentos de crise, como ser um Rio de Impacto?”

Criado por Juliana Oliveira   |  Publicado em 29-11-2018

“Em momentos de crise, como ser um Rio de Impacto?”

A terceira edição do Seminário Negócios de Impacto Social e Ambiental, realizado pelo Sebrae/RJ em parceria com o grupo Rio de Impacto, em outubro deste ano, reuniu empreendedores, investidores, estudantes, docentes e representantes de redes empresariais. O objetivo principal foi abordar, de forma inspiradora e dinâmica, os principais desafios para os empreendedores que buscam aliar lucro ao benefício da sociedade.

Com a moderação de Flávia Viana, da Oi Futuro, o quarto painel do seminário buscou responder à questão ‘em momentos de crise, como ser um Rio de Impacto?’. Para discutir o assunto, foram convidados Francisco Araújo, da Maker Investimentos Criativos; Thiago Nasser, da Junta Local; Téo Benjamin, criador da Bando, consultoria para financiamentos coletivos; e João Bernando Casali, sócio-fundador da Goma, um coletivo de projetos de impacto socioambiental. Os especialistas apresentaram alternativas para conseguir investimentos e patrocínios no momento atual da economia brasileira.

O analista de políticas públicas Francisco Araújo, sócio-fundador da Maker Investimentos Criativos, defendeu, em sua fala, que ideia atual de crise no Brasil, tão fortemente difundida, é, muitas vezes, alarmista. Em seus gráficos, ele fez ainda uma relação entre a desigualdade social e racial no Rio de Janeiro, descrevendo que a maior parte da população negra pertence às classes mais baixas da pirâmide social e reside em áreas de favela.

“Hoje, uma a cada seis pessoas moram em territórios considerados favelas. São áreas que estão em constante expansão e agregam gente empreendedora, gente criativa, gente trabalhadora, gente que consome e que tem suas próprias demandas. Então não é muito inteligente nós pensarmos nessas áreas como um problema, quando elas têm potêncial de ser, na verdade, e se manejadas estrategicamente, uma solução nesse tempo de crise”, disse Francisco.

De acordo com o analista, o aumento da taxa de desemprego visto em 2014 foi uma das condições que alavancaram o crescimento do empreendedorismo no Rio de Janeiro, tornando-o o segundo maior estado do Brasil em indústria criativa.

“O pessoal que foi perdendo o emprego quando a economia começou a balançar pegou a rescisão e o FGTS e começou a empreender. Mas eles fizeram isso justamente quando a onda da economia criativa estava começando por aqui. E isso é uma coisa maravilhosa! Em tecnologias, mídias, cultura e consumo, o Rio de Janeiro só está crescendo e, em diversas pesquisas, já somos a cidade mais inovadora do Brasil”, comemorou Francisco.

Dando continuidade à discussão de alternativas empreendedoras em uma economia instável, o sócio fundador da Goma, João Bernando Casali, contou como o coletivo foi formado justamente quando a crise atual começou a atingir o estado, e o grupo descobriu que colaboração era a chave.

Se a Goma não é uma aceleradora, porque não fica com uma parte das empresas que abriga, ela também não é um espaço de coworking – porque não lucra com o aluguel dos espaços. A Goma, de fato, não tem fins lucrativos. Seu modelo de negócios visa a autossuficiência, num modelo de empreendimento social. Atualmente, o espaço conta com 106 empreendedores trabalhando diariamente no local.

“A galera da Goma já tinha encontrado o espaço interessante na Rua Senador Pompeu e estava buscando opção para trabalhar em conjunto. Foi em 2013 que eles entenderam que aquele local poderia ser o berço do sonho coletivo de empreender em rede, com vários projetos ligados a impacto social e ambiental. Hoje existe lá uma comunidade de empreendedorismo, que gasta relativamente pouco para manter suas empresas no local e ganha muito, seja pela estrutura ou pela coletividade, pela troca de experiências e do trabalho colaborativo”, contou.

O poder da conexão também foi discutido por Thiago Nasser, cientista social e fundador da Junta Local. Fundada em 2014, a feira tem edições mensais e ocorre em lugares diferentes da cidade, além de contar com uma sacola virtual. E é o próprio Thiago, junto com seus dois sócios, que todos os meses faz a ponte entre produtores locais e consumidores conscientes.

“Quando o laço entre quem compra e quem faz é resgatado, a qualidade das coisas é melhor. E isso, essa ligação, faltava no Rio. Tem feiras, feiras orgânicas, mas a gente queria um espaço aberto onde os consumidores pudessem conhecer a origem do que comem e os produtores pudessem lucrar também mais, sem aquela gente toda no caminho. Um dos grandes problemas para o pequeno produtor é a distribuição, o percurso é muito longo e todo o dinheiro acaba ficando concentrado em quem vende, e não na pessoa mais importante, que é quem faz”, explicou Thiago.

Em conjunto, as plataformas (feira e sacola virtual) estão promovendo  mudanças na cultura alimentar e, principalmente, na relação criada com a cidade e os produtores responsáveis pelos alimentos. O desafio, no entanto, estava em encontrar modelos para sustentar essas plataformas mantendo a autonomia do empreendimento.

“Na economia tradicional, recorre-se a investidores, bancos, editais e assim por diante. Nós, da Junta, optamos, fiéis ao nosso DNA de ‘faça-você-mesmo’ e de constante autoavaliação e mudança, por um modelo de autofinanciamento. Assim, os produtores envolvidos assinaram o ‘termo ajuntativo’, que reafirma os valores da Junta Local e estabelece os moldes de um novo modelo de cooperação e aprofundamento do vínculo entre os produtores e a evolução sustentável da Junta Local. O Modelo Ajuntativo nos permite continuar desenvolvendo nossas plataformas e colocar em prática projetos que aprofundam a nossa capacidade de transformar o sistema alimentar”, garantiu o cientista social.

Para finalizar, o jornalista e consultor em financiamento coletivo Téo Benjamin apresentou a modalidade de financiamento como uma alternativa para quem deseja começar a empreender.

“A cenário do financiamento coletivo no Brasil é muito rico. Nós estimamos que só em 2015, foram 25 mil campanhas lançadas e R$ 60 milhões girados em todos os modelos. As plataformas não dão conta de tudo, porque são startups com equipes enxutas e precisam se preocupar com sua operação, desenvolvimento e sobrevivência”, contou. Para o jornalista, essa modalidade, mais do que captar dinheiro, ajuda os empreendedores a testar os produtos e criar uma rede de apoiadores da ideia.

“Basicamente, funciona da seguinte maneira: você apresenta seu projeto por meio de uma das plataformas de crowdfunding, como também é conhecido, e tem um prazo e uma meta a serem alcançados. O captador oferece, em troca, recompensas simbólicas à sua rede”, disse, acrescentando que o Bando faz o trabalho de entender como essas plataformas funcionam e orientar quem desejar captar fundos.

“Nós ocupamos esse espaço de pensar o setor como um todo, articular com os personagens do modelo e nos aprofundarmos em projetos específicos. Financiamento coletivo tem suas particularidades e seus atalhos para uma campanha bem-sucedida. E nós conhecemos e estudamos esses caminhos”, declarou Téo.

Para saber mais sobre as empresas participantes, acesse os links abaixo.

Maker Investimentos Criativos - https://www.makerinvest.com.br/

Goma - http://goma.org.br/

Junta Local - https://juntalocal.com/

Bando - http://www.somosbando.com/

O Rio de Impacto é formado pelo Sebrae/RJ, NESst, Sitawi, Yunus Negócios Sociais, Universidade Santa Úrsula, Benfeitoria, ESPM, Instituto Gênesis (PUC-Rio), Sistema B, Alerj, Vox Capital e Shell Iniciativa Jovem.